Essa tal liberdade: os avanços tecnológicos e a necessidade de uma nova gestão de pessoas

Essa tal liberdade: os avanços tecnológicos e a necessidade de uma nova gestão de pessoas


Esse foi o tema do evento Café com Informação, em que participei no dia 27 de abril, na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul – CIC. A palestra com Marta Buffon Martins, presidente da Buffon, Martins Consultoria – empresa que atua na área de gestão empresarial –, trouxe reflexões como os cenários organizacionais na Era de tecnologias exponenciais e os conflitos de valores que envolvem as novas gerações. Ambos os assuntos nos permitiram pensar as mudanças comportamentais que presenciamos no nosso dia a dia de trabalho e nos desafios que circundam os sistemas de gestão. Bate papo bastante pertinente, já que participavam do evento, empresários e gestores de organizações de Caxias do Sul e região.

Bem! Para começar a conversa, Marta mencionou a teoria de Peter Diamandis, presidente da Singularity University, em que o autor explica como acontece a disrupção em um cenário de crescimento exponencial. Os 6Ds, ou as seis fases pelas quais um processo, produto ou serviço passa antes de atingir o pico máximo da disrupção tecnológica, formam uma reação em cadeia. Segundo Marta, durante esse ciclo de transformações ocorrem mudanças significativas, tanto no âmbito dos negócios quanto das relações humanas e de trabalho. Entender esse processo nos faz pensar sobre como surgem as inovações nos dias atuais e como podemos participar desse processo de maneira mais ativa e estratégica. As organizações precisam compreender esse processo ao projetar seu futuro e formato de atuação.

Segundo Peter Diamandis, as tecnologias exponenciais, que estão influenciando nosso comportamento, passam pelas seguintes fases de transformação.

Digitalização


Quando algo (produto, serviço ou processo) deixa o meio físico e passa a ser digital. Quando isso ocorre, esse objeto passa a ter um poder exponencial, pois pode ser difundido com maior velocidade e para qualquer parte do mundo. Ele se torna mais acessível.

Decepção


É bastante comum ocorrer uma decepção logo nas primeiras fases de qualquer projeto que passa pela fase da digitalização. Isso porque o crescimento dos resultados é quase imperceptível, ou dissimulado, disfarçado, como alguns autores gostam de falar. Isso leva muitos gestores a uma decepção, já que os resultados se multiplicam de maneira quase insignificante. Podemos imaginar aqui o número de usuários de uma aplicação ou produto, o número de vendas, ou até mesmo a quantidade de acessos a um serviço.


Disrupção


As tecnologias disruptivas são aquelas capazes de modificar cenários através da inovação, criando novos mercados e abalando os já existentes. Por isso merecem bastante atenção das organizações. Quando a disrupção acontece, o crescimento exponencial é logo percebido. Vemos isso acontecer com muita frequência com as chamadas startups, pois, geralmente, elas têm seu foco direcionado em criar alternativas e soluções para problemas, causando uma mudança no mercado e nas formas de se ter acesso a um serviço. A disrupção tem a capacidade de criar novas demandas.

Desmaterialização


Uma vez que um processo ou produto deixa de ser físico e se torna digital, ocorre uma desmaterialização do objeto. A disponibilidade em nuvem - ou seja, a hospedagem do objeto digital em servidores. Daí por diante, a tendência é que esse objeto seja integrado a outras plataformas e/ou dispositivos, deixando sua forma original completamente de lado. É o exemplo das câmeras fotográficas de filme, que passaram a ser digitais e hoje, se encontram integradas em celulares.


Desmonetização


Esse conceito pode ser entendido como a desvalorização de tecnologias, produtos e serviços já existentes, frente aos novos modelos de venda, aluguel e disponibilidade de serviços. A acessibilidade e a economia de recursos financeiros são marcas das novas tecnologias digitais. Essa realidade está alterando nossa percepção de valor das coisas. Por isso, grande parte das empresas vem repensando seus processos operacionais e comerciais, oferecendo produtos e serviços a preços mais acessíveis ou até mesmo de graça. Essa nova mentalidade traz a necessidade de estratégias mais ousadas e humanas para alcançar a tal lucratividade e sustentabilidade do negócio.


Democratização


É o auge da cadeia exponencial, quando o produto, processo ou serviço se resume a “bits” e fica acessível a um número gigante de usuários, gratuitamente ou com preço bastante reduzido. O objeto, então, está ao alcance de todos, em qualquer parte do planeta.

Essa tal liberdade: os avanços tecnológicos e a necessidade de uma nova gestão de pessoas
Foto: Candice Giazzon/ CIC


Voltando às relações humanas, Marta refletiu sobre a eterna busca por qualidade de vida e as novas tecnologias, e como elas estão impactando os sistemas de Gestão de Pessoas, criando conflitos entre gerações (X, Y, Z). Pois, nas empresas, ainda encontramos muitos gestores com a mentalidade da geração baby boomers, que foram educados em um contexto de época onde o foco principal era ter um emprego digno (aos olhos dos outros), fixo e duradouro. Esses mesmos gestores estão comandando cargos e funções ocupadas por pessoas de gerações sucessoras, como a “X”, que valoriza a vida pessoal e não suporta ter que viver de trabalho, a “Y”, que prefere trabalhar individualmente e tem conhecimento e foco em resultados, e, por fim, a geração “Z”, que possui menos ambição ao dinheiro e busca ter prazer no seu trabalho. Nota-se aí, uma disparidade de interesses que necessita ser trabalhada pelas organizações para conquista de melhores resultados de trabalho em equipe. E haja comunicação e sensibilidade para manter estratégias que satisfaçam a todos os interesses.

De acordo com a Organização das Nações Unidas – ONU –, a taxa de desemprego em 2035 pode chegar a 20% no mundo todo, e no ano de 2050, a estimativa é que 40% dos postos de trabalho, tal qual conhecemos hoje, deixem de existir.

Segundo pesquisa da Top Employers Institute, a demanda por qualidade de vida está crescendo de forma absurda. Por isso, vemos novas modalidades de trabalho sendo criadas e adotadas por organizações contemporâneas. Em 37% das empresas brasileiras já é possível adotar, por exemplo, a modalidade home office. No mundo, esse percentual chega a 44%.

As empresas precisam se adaptar às mudanças nos subsistemas de gestão de pessoas. É preciso encontrar profissionais que possuam os mesmos valores que a organização, firmando um “casamento cultural” entre funcionário e empresa, criando um propósito comum e, ao mesmo tempo, pessoal.

Lembremos ainda que, não é possível moldar os valores do funcionário para que se adaptem aos da empresa. A empresa é que precisa entender que certos profissionais são mais produtivos e realizados se atuantes em determinados modelos de trabalho (home office, horário flexível etc).

Cristiane de Carvalho

Autora: Cristiane de Carvalho
Relações-públicas, estudante de pós-graduação em Gestão de Pessoas, Competências e Coaching pela FSG.