Roda de chimarrão: história, tradição e hospitalidade

Roda de chimarrão, tradição e hospitalidade


Existem elementos que são intrínsecos ao sujeito nascido em um meio social. Dentre eles, podemos citar a língua, o sotaque, a comida, os saberes e as tradições locais. E quando se fala em tradições, o Brasil é um país repleto de culturas próprias e regionalizadas, conhecidas mundialmente e que passam de geração para geração. Uma das tradições fortemente reconhecidas em nosso país, é a famosa roda de chimarrão.

O chimarrão é a bebida que está presente no dia a dia do povo gaúcho e em algumas cidades do Paraná e Santa Catarina. É preparada com a adição de erva-mate em uma cuia, bomba e água quente. A erva-mate (Ilex paraguariensis), também chamada de mate ou congonha, é uma árvore cultivada na região subtropical da América do Sul, que quando moída é transformada em um chá de gosto amargo. A cuia é um recipiente de forma arredondada produzido a partir do cultivo e tratamento do porongo. A bomba é um objeto similar a um canudo de metal, com uma das pontas mais larga e redonda, repleta de orifícios para sucção da água quente misturada ao mate.

As rodas de chimarrão acontecem de várias maneiras. Por exemplo, quando uma família ou grupo de amigos se reúne para matear, seja em casa, na praça da cidade ou outro local específico. O convite para chimarrear é um símbolo tão gaúcho quanto às danças e vestimentas típicas da região. Evoca um sentimento de participação coletiva. Um gesto de hospitalidade, pois é praticado até mesmo para aproximar os recém-chegados.

Roda de chimarrão: história, tradição e hospitalidade

A história do chimarrão


A origem do chimarrão está atrelada aos índios guaranis. Eles consumiam a erva-mate, que para eles se chamava caiguá, onde “caá” significa erva, “i” é água e “guá” o recipiente para a água da erva. Os indígenas usavam a erva-mate para revigorar o organismo e como forma de manter a disposição para as atividades do dia a dia.

Com a chegada dos espanhóis ao sul do Brasil, em 1554, o general Irala vai às atuais terras do Paraná, que era então, na época chamada de Guaíra, local onde habitavam 300 mil índios guaranis. Observando como os guaranis utilizavam a erva-mate e seu efeito “energizante”, os colonizadores se apropriaram da tradição. Desse momento em diante, o consumo da infusão de água quente com erva-mate passou a ser considerado uma característica cultural da região sul do país.

A tradição não é totalitária no Rio Grande do Sul, pois não são todas as cidades que cultivam essa rotina, porque nem todas sofreram o mesmo tipo de colonização e imigração. A região Nordeste do estado foi colonizada por imigrantes italianos, alemães, franceses e outras etnias. Por isso, não é tão comum encontrar as pessoas mateando ou chimarreando, assim como no Centro e no Oeste.

O costume de “tomar chimarrão” foi difundido por todo o Sul do Brasil e por países vizinhos como o Uruguai, o Paraguai e a Argentina. Existe uma discussão sobre o termo correto para designar a bebida: chimarrão ou mate. Pois bem, no Brasil, é chimarrão por causa da influência castelhana. Já nos países colonizados por espanhóis, é mate, derivado de mati.

O costume de beber chimarrão


O legado deixado pelos índios guaranis é um hábito de consumo que se tornou uma resistência cultural contemporânea. O chimarrão possui traços da ruralidade e da tradição, sendo um ritual comumente praticado em qualquer lugar em que o sujeito esteja. Em tempo, o rito se tornou um hábito, e mais urbano do que rural. A roda de chimarrão representa um momento de união e hospitalidade, em que, passar a cuia de mão em mão, mantém acesa a chama do afeto e do respeito.

O gosto amargo do chimarrão não agrada a qualquer paladar. O seu sabor fez com que outras bebidas fossem criadas a partir erva-mate, como o tereré, que possui a mesma concepção, porém, é servido com água fria ou suco de limão.

Do ponto de vista social, podemos dizer que ato de chimarrear age como um conector entre indivíduos. Já que a ação de ofertar a bebida a um visitante, ou até mesmo a um estranho, mostra o quão confortável o sujeito esta para o outro. Dessa maneira, o visitante tem a sensação de ser bem recebido e de, quem sabe, sentir-se em casa.



Autor: Felipe Zaltron de Sá
Colunista colaborativo do Mazáaa!. Estudante de Turismo pela Universidade de Caxias do Sul - UCS. Apaixonado por pesquisa, cidade, cultura, viagens, deslocamento e mudança.