Uma análise do filme Donnie Darko

Análise do filme Donnie Darko

Desde o seu lançamento em 2001, o filme “Donnie Darko” do diretor Richard Kelly tornou-se um fenômeno “Cult”: é um dos filmes mais pesquisados e acessados na Internet (atualmente ocupa a 185° do Top 250 do IMDB), em geral, por espectadores que buscam uma explicação para a enigmática narrativa sobre um adolescente problemático, com misteriosas visões de um coelho de dois metros de altura chamado Frank que faz uma espécie de contagem regressiva para o fim do mundo. “Donnie Darko” é um exemplo de filme que se tornou atemporal por amarrar em um inteligente roteiro arquétipos contemporâneos e milenares sobre o tempo, destino e redenção.

As primeiras cenas parecem ter todos os ícones dos filmes convencionais sobre adolescentes que moram em subúrbios com problemas existenciais na “high school” envolvendo namoradas e jovens valentões. Mas aos poucos vamos descobrindo que estamos diante de um filme incomum...

...O filme foi produzido em 2001 e a história se passa em 1988 e a narrativa se estrutura em uma potencial viagem no tempo em loop, onde o protagonista tenta quebrar esse ciclo vicioso temporal.


O Filme


O ator Jake Gyllenhaal interpreta Donnie Darko, filho de pais que convivem em uma espécie de tensa normalidade. Nessa família há conflitos tradicionais e dramas à mesa do jantar. O pai republicano fica bravo que sua filha mais velha pretende votar no Democrata Michael Dukakis (candidato à presidência em 1988) e a irmã caçula de Donnie tenta vencer um concurso nacional de talentos com seu grupo de danças da escola – ecos do filme “Beleza Americana” de 1998.

Donnie é sonolento, introspectivo, uma dor de cabeça para os pais. Apesar das boas notas na escola, ele tem problemas psíquicos e toma remédios psiquiátricos: sonâmbulo, sai todas as noites de casa para acordar em estranhos lugares como no meio de estradas ou no campo de golfe local.

A vida de Donnie é tocada pelo destino quando, após passar mais uma noite fora do seu quarto, a turbina de um boeing 747 cai sobre sua casa. Se estivesse lá, estaria morto. O estranho é que ninguém sabe de onde a turbina caiu e que Donnie escapou da morte após ser chamado por uma estranha figura chamada Frank, aparentemente, uma pessoa de dois metros de altura fantasiada de coelho e que avisa Donnie que o mundo vai acabar em questão de dias.

Frank começa a encorajar Donnie a cometer atos de vandalismo contra instituições opressivas como a escola (que depreda e causa uma inundação), a psiquiatra (a constrange quando tenta se masturbar sob hipnose) e o escritor-celebridade de livros de auto-ajuda (incendeia sua casa), e revela que existem outras realidades alternativas por meio de planos temporais simultâneos, cada um com uma lógica pré-determinada.

Donnie se apaixona por Gretchen, a nova aluna da escola que veio de outro estado e mudou-se para a cidade com a mãe, tendo ambas trocado de nome, para fugir de um ex-namorado da mãe. É quando Donnie começa a ter alucinações com “warmholes” (“buracos de minhoca”), que são projetados a partir da altura do peito (alusão ao conceito esotérico de chákra cardíaco?) das pessoas, criando distorções no “continnum” espaço-tempo.



Tudo para preparar-se para o conflito final que acontece na noite de Halloween contra os valentões da escola, Seth e Alex (símbolos do “status quo” conformista e vazio) que determinará a morte de sua namorada e a sua disposição em sacrificar-se por todos.


Universos tangentes


O diretor Richard Kelly diz que o argumento de “Donnie Darko” se inspirou em três fontes: primeiro em um conjunto de escritores como Kafka, Stephen King e Graham Green; segundo, uma antiga lenda urbana sobre um pedaço de gelo que teria caído de um avião e matado uma pessoa; e terceiro, “criei um arquétipo de um personagem principal que se sentisse alienado ou que se sentisse diferente em uma sufocante vida das comunidades de subúrbio” (MURRAY, Rebeca. “Q&A with Writer/Director Richard Kelly” in: About.com Hollywood Movies).
        
A partir do arquétipo contemporâneo do “Estrangeiro” (aquele que se sente um estranho dentro de sua própria família e comunidade como forma de denúncia da ilusão do princípio de realidade), Kelly cria uma complexa trama narrativa: imagine que existem de diferentes universos além do nosso mundo – hipótese gnóstica proposta por Basilides no início da Era Cristã. Algo estranho e deslocado aconteceu em nosso universo, algo que não há explicação possível, a não ser que, talvez, este evento ou coisa que veio de outro tempo ou outro universo: a turbina que caiu no quarto de Donnie. Quando pela primeira vez cai no filme, ele não pode ser explicado, e vemos que Donnie é salvo graças ao chamado de Frank. A premissa do filme é que, por causa da queda da turbina, os dois universos diferentes, foram presos em um “loop” de tempo.



Em essência, um “loop” de tempo significa que um universo tangente foi criado, e os mesmos eventos vão acontecer uma e outra vez neste universo tangente, a menos que uma ação seja executada, que mude o curso do evento original que causou neste universo tangente. Portanto, se a queda da turbina e a ação fundamental em Donnie sair de casa e escapar da morte foram a causa original, é claro que a morte de Donnie seria a única solução para o fechamento do ciclo do tempo, destruindo o universo tangente.

A condição de “Estrangeiro” de Donnie o fazem ter sucessivos estados alterados de consciência (sonambulismo, visões esquizofrênicas, “insights” etc.) que o levam a descobrir que há algo errado não só na sociedade (a opressão escolar, a mediocridade sufocante da vida nas comunidades de subúrbio, a hipocrisia do autor “best seller” de auto-ajuda) como na própria textura da realidade (a estranha tangência entre os universos que pode levar ao fim do mundo).

Donnie também descobre que o plano temporal em que ele vive pode ser revertido e que ele tem poder para fazer isso, isto é, transcender seu plano temporal através de um vórtice e mover-se livremente por outros planos alterando destinos pré-determinados. Após a morte de sua namorada e, mais tarde, da sua mãe na queda de um avião sugado por outra dimensão temporal pela tangência dos universos, Donnie retorna no tempo para a noite em que viu Frank pela primeira vez. Dessa vez Donnie fica no seu quarto e morre na queda da turbina. Um grande sacrifício que Donnie assume para que desperte desse mundo e altere o fluxo temporal – sua namorada e sua mãe escapam da morte.


Uma fábula gnóstica


A certa altura do filme, Donnie sai de um cinema onde se lê o título do filme “A Última Tentação de Cristo”. O diretor Richard Kelly, em entrevistas, afirmou que propositalmente procurou um paralelo entre a vida de Cristo e a do protagonista Donnie Darko. Essencialmente, Donnie foi um mártir que procurou em Frank um meio para morrer, assim como o personagem Judas foi para Cristo. Mais do que isso, Donnie, como um personagem estrangeiro, quer ensinar a todos a falsidade e a ilusão da sociedade e da própria realidade, como um “constructu” temporal e arbitrário.

Além disso, denuncia todas as formas de consolação ou racionalização da tragédia desse mundo: no filme é mostrado o confronto de Donnie Darko contra o sistema escolar conformista e contra a figura de Jim Cunningham, celebridade e vendedor de livros de auto-ajuda, adotado como conteúdo programático pela escola. Donnie se insurge contra o simplismo do pensamento de auto-ajuda (agrupar todas as matizes dos sentimentos humanos entre Amor e Medo) e incendeia a sua casa. A forma como a professora Mr. Monnitoff aborda o método de Cunnigham é de um evidente fundamentalismo religioso.

Semelhante ao que vemos em “Show de Truman” onde se tenta reduzir a melancolia do protagonista ao “script” freudiano, em Donnie Darko procura-se tratar do “problema” do protagonista com sessões de psicoterapia, hipnoterapia e remédios psicotrópicos.

Curiosamente, o filme aborda, também, o simbolismo do coelho, tanto no aspecto esotérico como na perspectiva literária ao aproximar-se com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. A melancolia e o tédio de Donnie que criam as circunstâncias que abrem sua consciência para a existência dos múltiplos níveis de realidade se equiparam ao tédio e melancolia de Alice (“em um dia quente que a deixava sonolenta e estúpida”) que prefere correr atrás de um coelho branco a “não ter nada para fazer”.



(Para muitas civilizações antigas, a representação do coelho simbolizava a inteligência, a astúcia e a renovação da vida, ou o acordar para a vida). 

Donnie segue as ordens do enigmático coelho que aparece para ele. Em uma dessas sequências, a figura do coelho associa-se, ainda, ao complexo simbolismo do espelho. O coelho (Frank) aparece para Donnie no espelho do banheiro da sua casa (Alice Através do Espelho?). Donnie tenta tocá-lo e a superfície manifesta-se flexível, como uma superfície líquida. Esta analogia entre espelho e água frequentemente simboliza a utilização mágica do espelho como instrumento de adivinhação, premonição (o coelho prevê o fim do mundo em um mês). Por outro lado, há uma correspondência direta entre o espelho e a melancolia de Donnie: assim como o espelho reflete as pessoas, o Frank reflete os papéis conformistas da sociedade:

Donnie: Por que você veste essa estúpida fantasia de coelho?
Frank: Por que você veste essa estúpida fantasia de homem?

Em Donnie Darko, o olho aparece constantemente pontuando a narrativa como, por exemplo, nos planos em que aparece um pôster no quarto de Donnie. O pôster é muito mais do que um item decorativo, pois há constantes planos de Donnie com o enquadramento aproximando o símbolo ao protagonista.



Para o Gnosticismo, o olho tem um profundo simbolismo. Segundo Cirlot, a essência do simbolismo do olho está contida num dito do filósofo romano Plotino, segundo o qual “nenhum olho está capacitado a ver o Sol enquanto, de certa maneira, não for ele mesmo um sol”. Dado que o Sol é fonte de luz, e que a luz é símbolo da inteligência e do espírito, deduz-se que o processo de ver representa um ato do espírito e simboliza o conhecimento. Mantido aprisionado no mundo material, mantém-se cego, necessitando ser aberto pela gnose.

O olho deve ser aberto para revelar o “homem interior”, a centelha de Luz, a parte da alma que mantém contato com o mundo superior. Faz parte do dualismo platônico que vê a alma dividida em duas partes: a que mantém contato com os “reinos das Ideias” e a parte que contata “o mundo físico”. Da mesma maneira, o simbolismo do olho seria dotado da mesma dualidade. Para o Gnosticismo, os olhos podem simbolizar, de um lado, a visão interior, a iluminação; do outro, a ilusão: os olhos enganam, criam ilusões, aceita o mundo como um dado perceptivo.


Ficha Técnica


Título: Donnie Darko
Direção e roteiro: Richard Kelly
Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Mary McDonnell, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Patrick Swayze
Produção e distribuição: Pandora Cinema
Ano: 2001
País: EUA





Wilson Roberto Vieira Ferreira
Autor: Wilson Roberto Vieira Ferreira
Criador do blog Cinema Secreto: Cinegnose. Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.